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A Tecnocracia dos EUA e a tentativa de Trump de implementar o "Technate of America"

O movimento tecnocrata dos EUA, com origens no século XX, prega que o país seja governado por uma elite, enquanto domina territórios nas Américas

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Redação Análise Geopolítica
7 min de leitura
Mapa da Tecnocracia dos Estados Unidos da América, "Technate of America"

Mapa Tecnocracia dos Estados Unidos da América, "Technate of America"

O conceito de Tecnato da América ou Technate of America surgiu no início do século XX como parte do movimento tecnocrático dos EUA, sendo uma proposta para reorganizar a sociedade e expandir as fronteiras dos EUA, com o objetivo de estabelecer uma ordem política e social que seria regida por uma elite "técnica", onde a política e a sociedade seriam guiadas por princípios científicos, com os cargos governamentais ocupados por engenheiros e cientistas.

Além do rearranjo político e social, o plano de implementação do Tecnato da América também previa a expansão territorial dos EUA com a anexação de territórios-chave ricos em recursos naturais, o que incluía os atuais territórios do Canadá, México, Groenlândia, Venezuela e Colômbia, além das ilhas do Caribe e outros territórios da América Central e da América do Sul. Segundo os tecnocratas, tais territórios seriam necessários para providenciar todos os tipos de matérias-primas necessárias para o desenvolvimento do país, o que formaria na prática um mega-país que seria autossuficiente, não dependendo mais de comércio externo para atender sua demanda por recursos.

Neste artigo, apresentamos as principais ideias e realizações do movimento tecnocrata norte-americano, ao final fazendo um paralelo com as atuais ações que a administração Trump vem tomando, pois muitas se assemelham às propostas dos tecnocratas do início do século XX.

Origem do Technate of America

O termo "technocracy" ou "tecnocracia" foi cunhado em 1919 pelo engenheiro William Henry Smyth, que definiu o conceito como um "governo eficiente mediado por cientistas e engenheiros em benefício do povo". Durante a Grande Depressão de 1929 e meados dos anos 1930, o movimento Tecnocrata ganhou tração, principalmente pautado pelas ideias apresentadas no livro "The Engineers and the Price System" (Os Engenheiros e o Sistema de Preços) de Thorstein Veblen, que criticava o sistema capitalista, apontando suas ineficiências e defendendo o controle da economia por especialistas técnicos, ao invés de entregar o poder para políticos comuns.

Antes mesmo do movimento ter relevância nacional, em 1919, Howard Scott fundou a Technical Alliance, um grupo de engenheiros e intelectuais que realizou uma pesquisa geológica e energética da América do Norte para mapear recursos e propor uma gestão racional da economia. Essa aliança evoluiu para o movimento tecnocrático formal em 1932-1933, com o Technate proposto como uma unidade administrativa continental autossuficiente, abrangendo os EUA, Canadá, México, Groenlândia, América Central, Caribe e partes da América do Sul (até o Canal do Panamá), para eliminar desperdícios e promover abundância por meio de tecnologia.

A tecnocracia proposta pelo Technate

O movimento tecnocrático teve seu auge em 1933, alcançando milhares de membros nos EUA e no Canadá, em um período em que a população estava desacreditada da política que regia os países na época, devido à pobreza generalizada que se instaurou durante a Grande Depressão.

A base do movimento tecnocrata consistia na rejeição da democracia representativa, da política partidária e do sistema de preços de livre mercado capitalista, afirmando que esses elementos causavam ineficiência e escassez de recursos, justamente em um período com um grande potencial de abundância energética.

A proposta central para solucionar esses problemas era a implementação de um Estado chamado Technate, onde haveria uma entidade governamental unificada composta por uma elite de especialistas (engenheiros e cientistas), que governariam um sistema de engenharia social, promovendo uma produção contínua e eficiente que operaria 24h por dia, 7 dias por semana, com horários de trabalho reduzidos para 4 horas diárias e uma semana de trabalho de 4 dias, com ciclos rotativos de trabalhadores em atividade, prometendo uma qualidade de vida melhor para os operários e uma eficiência na produção como consequência.

O ponto central do Technate seria a conquista e unificação dos territórios da América do Norte, América Central, Caribe e partes da América do Sul, o que daria todos os recursos naturais e humanos necessários para a implementação de tal sistema, já que esses territórios são abundantes em todos os tipos de recursos imagináveis.

Mapa dos territórios do Technate of America

Mapa dos territórios do Technate of America

A economia seria reformada e se basearia em um sistema de "valor baseado em energia", onde bens e serviços seriam distribuídos via certificados de energia (uma forma de contabilidade não monetária), alocando recursos de forma igualitária e científica para evitar acumulação ou desperdício.

Para a política, os tecnocratas dos EUA enfatizavam a neutralidade, abstendo-se de eleições ou revoluções, mas adotavam características tipicamente de movimentos fascistas, como a adoção de uniformes padronizados na cor cinza, saudação pública e um logotipo chamado "Monad".

Após seu pico de popularidade em 1933, o movimento tecnocrata terminou sendo enterrado devido à fragmentação do movimento em facções rivais, com as organizações tecnocratas colapsando em 1936.

Trump e o Technate of America em 2025-2026

Os planos expansionistas defendidos por Trump em seu segundo mandato ecoam o conceito de Technate, especialmente por sua visão de um continente americano sob administração e influência direta dos EUA.

A recente intervenção militar dos EUA na Venezuela provou de uma vez por todas que Trump está seguindo à risca o plano territorial proposto para o Technate visando garantir autossuficiência de recursos e energia para os EUA. O território venezuelano já era visto como estratégico devido as suas vastas reservas de petróleo, o que atenderia aos requisitos de autossuficiencia total proposta pelos tecnocratas, além de que seria uma "fronteira natural" do gigantesco estado do Technate ao sul, o que facilitaria a defesa e a integração da região, com a Venezuela contribuindo para uma "integração continental" do Technate, que priorizada a completa isolação do Estado proposto ao resto do mundo, principalmente de influências externas da Europa ou Ásia nas Américas. Com o ataque dos EUA contra a Venezuela, que resultou na prisão de Maduro, provou-se que Trump vê a região do Caribe da mesma forma proposta pelo Technate, alegando que não tolera influência externa da Rússia, China ou qualquer outro país na região, e garantindo o acesso contínuo ao petróleo venezuelano, que sustentará a expansão energética e produtiva dos EUA.

As declarações de Trump sobre sua intenção de anexar a Groenlândia aos EUA também é uma referência direta aos mapas e propostas dos tecnocratas, pois em ambos os casos, a justificativa para a tomada de tal território reside sobre alegações de que os EUA devem dominá-lo para garantir sua segurança nacional, seja no âmbito militar, energético, de recursos e comercial, com Trump citando nominalmente que deseja expulsar qualquer tipo de influência externa da região, alegando uma suposta influência chinesa e russa sobre a Groenlândia.

Outros territórios que originalmente faziam parte dos mapas do Technate também estão sob a mira de Trump com diferentes alegações para a interferência dos EUA sobre eles:

Territórios e países recentemente ameaçados por Trump

  • Trump ameaçou anexar o Canadá e torná-lo o 51º estado dos EUA, citando falhas em controle de fronteiras e drogas, tarifas comerciais e influência chinesa.
  • Trump atualmente fala sobre uma intervenção militar no México, citando falhas em controle de fronteira e drogas, falta de combate ao crime organizado, imigração e influência chinesa.
  • Trump ameaçou intervir no Panamá e obrigou o governo panamenho a implementar medidas contra empresas chinesas, chegando a ameaçar recuperar o controle do Canal do Panamá, citando uma suposta ineficiência na administração do canal.

Além dos países citados anteriormente, Trump também já fez ameaças de interferência militar contra a Colômbia, Cuba e Nicarágua, reforçando seu âmbito expansionista na região do Caribe.

Em dezembro de 2025, a Casa Branca anunciou a retomada da Doutrina Monroe ou a nova "Doutrina Donroe" com o nome de "Trump Corollary", revivendo a esfera de influência dos EUA no Hemisfério Ocidental, incluindo o estabelecimento de intervenções militares, econômicas e políticas contra países que não estejam alinhados aos interesses dos EUA.

Capa do jornal New York Post exibe Trump apontando para um mapa do continente americano sob a ótica da "Doutrina Donroe", com o Canadá, Groenlândia e Panamá sendo territórios anexados aos EUA

Capa do jornal New York Post exibe Trump apontando para um mapa do continente americano sob a ótica da "Doutrina Donroe", com o Canadá, Groenlândia e Panamá sendo territórios anexados aos EUA

Donald Trump não é um tecnocrata no sentido literal, mas suas ações e declarações de expansão territorial remetem aos planos do Technate de anexar territórios aos EUA para garantir a completa autossuficiência de recursos, isolacionismo norte-americano e expulsão de toda e qualquer tipo de influência externa de toda a América, seja ela chinesa, russa ou de qualquer outra potência.

Em resumo, as ações e retórica de Trump no segundo mandato (iniciado em janeiro de 2025) exibem paralelos notáveis com o plano do Technate of America, que visava criar um superestado autossuficiente em recursos, governado por elites técnicas para eliminar ineficiências democráticas e capitalistas. O mapa do Technate, de 1940, incluía EUA, Canadá, México, Groenlândia, América Central, Caribe e norte da América do Sul (como Venezuela e Colômbia), priorizando energia, defesa e isolacionismo.

Esses elementos não foram apenas mencionados, mas em parte executados por Trump, culminando na adoção oficial do "Trump Corollary" à Doutrina Monroe na National Security Strategy de dezembro de 2025. Essa agenda de domínio hemisférico, justificada por segurança energética e combate a influências externas, sugere uma ressurreição implícita de ideias tecnocráticas, adaptadas ao contexto contemporâneo de "America First", mesmo que sem referência explícita ao movimento original.