A Tecnocracia dos EUA e a tentativa de Trump de implementar o "Technate of America"
O movimento tecnocrata dos EUA, com origens no século XX, prega que o país seja governado por uma elite, enquanto domina territórios nas Américas

Mapa Tecnocracia dos Estados Unidos da América, "Technate of America"
O conceito de Tecnato da América ou Technate of America surgiu no início do século XX como parte do movimento tecnocrático dos EUA, sendo uma proposta para reorganizar a sociedade e expandir as fronteiras dos EUA, com o objetivo de estabelecer uma ordem política e social que seria regida por uma elite "técnica", onde a política e a sociedade seriam guiadas por princípios científicos, com os cargos governamentais ocupados por engenheiros e cientistas.
Além do rearranjo político e social, o plano de implementação do Tecnato da América também previa a expansão territorial dos EUA com a anexação de territórios-chave ricos em recursos naturais, o que incluía os atuais territórios do Canadá, México, Groenlândia, Venezuela e Colômbia, além das ilhas do Caribe e outros territórios da América Central e da América do Sul. Segundo os tecnocratas, tais territórios seriam necessários para providenciar todos os tipos de matérias-primas necessárias para o desenvolvimento do país, o que formaria na prática um mega-país que seria autossuficiente, não dependendo mais de comércio externo para atender sua demanda por recursos.
Neste artigo, apresentamos as principais ideias e realizações do movimento tecnocrata norte-americano, ao final fazendo um paralelo com as atuais ações que a administração Trump vem tomando, pois muitas se assemelham às propostas dos tecnocratas do início do século XX.
Origem do Technate of America
O termo "technocracy" ou "tecnocracia" foi cunhado em 1919 pelo engenheiro William Henry Smyth, que definiu o conceito como um "governo eficiente mediado por cientistas e engenheiros em benefício do povo". Durante a Grande Depressão de 1929 e meados dos anos 1930, o movimento Tecnocrata ganhou tração, principalmente pautado pelas ideias apresentadas no livro "The Engineers and the Price System" (Os Engenheiros e o Sistema de Preços) de Thorstein Veblen, que criticava o sistema capitalista, apontando suas ineficiências e defendendo o controle da economia por especialistas técnicos, ao invés de entregar o poder para políticos comuns.
Antes mesmo do movimento ter relevância nacional, em 1919, Howard Scott fundou a Technical Alliance, um grupo de engenheiros e intelectuais que realizou uma pesquisa geológica e energética da América do Norte para mapear recursos e propor uma gestão racional da economia. Essa aliança evoluiu para o movimento tecnocrático formal em 1932-1933, com o Technate proposto como uma unidade administrativa continental autossuficiente, abrangendo os EUA, Canadá, México, Groenlândia, América Central, Caribe e partes da América do Sul (até o Canal do Panamá), para eliminar desperdícios e promover abundância por meio de tecnologia.
A tecnocracia proposta pelo Technate
O movimento tecnocrático teve seu auge em 1933, alcançando milhares de membros nos EUA e no Canadá, em um período em que a população estava desacreditada da política que regia os países na época, devido à pobreza generalizada que se instaurou durante a Grande Depressão.
A base do movimento tecnocrata consistia na rejeição da democracia representativa, da política partidária e do sistema de preços de livre mercado capitalista, afirmando que esses elementos causavam ineficiência e escassez de recursos, justamente em um período com um grande potencial de abundância energética.
A proposta central para solucionar esses problemas era a implementação de um Estado chamado Technate, onde haveria uma entidade governamental unificada composta por uma elite de especialistas (engenheiros e cientistas), que governariam um sistema de engenharia social, promovendo uma produção contínua e eficiente que operaria 24h por dia, 7 dias por semana, com horários de trabalho reduzidos para 4 horas diárias e uma semana de trabalho de 4 dias, com ciclos rotativos de trabalhadores em atividade, prometendo uma qualidade de vida melhor para os operários e uma eficiência na produção como consequência.
O ponto central do Technate seria a conquista e unificação dos territórios da América do Norte, América Central, Caribe e partes da América do Sul, o que daria todos os recursos naturais e humanos necessários para a implementação de tal sistema, já que esses territórios são abundantes em todos os tipos de recursos imagináveis.

Mapa dos territórios do Technate of America
A economia seria reformada e se basearia em um sistema de "valor baseado em energia", onde bens e serviços seriam distribuídos via certificados de energia (uma forma de contabilidade não monetária), alocando recursos de forma igualitária e científica para evitar acumulação ou desperdício.
Para a política, os tecnocratas dos EUA enfatizavam a neutralidade, abstendo-se de eleições ou revoluções, mas adotavam características tipicamente de movimentos fascistas, como a adoção de uniformes padronizados na cor cinza, saudação pública e um logotipo chamado "Monad".
Após seu pico de popularidade em 1933, o movimento tecnocrata terminou sendo enterrado devido à fragmentação do movimento em facções rivais, com as organizações tecnocratas colapsando em 1936.
Trump e o Technate of America em 2025-2026
Os planos expansionistas defendidos por Trump em seu segundo mandato ecoam o conceito de Technate, especialmente por sua visão de um continente americano sob administração e influência direta dos EUA.
A recente intervenção militar dos EUA na Venezuela provou de uma vez por todas que Trump está seguindo à risca o plano territorial proposto para o Technate visando garantir autossuficiência de recursos e energia para os EUA. O território venezuelano já era visto como estratégico devido as suas vastas reservas de petróleo, o que atenderia aos requisitos de autossuficiencia total proposta pelos tecnocratas, além de que seria uma "fronteira natural" do gigantesco estado do Technate ao sul, o que facilitaria a defesa e a integração da região, com a Venezuela contribuindo para uma "integração continental" do Technate, que priorizada a completa isolação do Estado proposto ao resto do mundo, principalmente de influências externas da Europa ou Ásia nas Américas. Com o ataque dos EUA contra a Venezuela, que resultou na prisão de Maduro, provou-se que Trump vê a região do Caribe da mesma forma proposta pelo Technate, alegando que não tolera influência externa da Rússia, China ou qualquer outro país na região, e garantindo o acesso contínuo ao petróleo venezuelano, que sustentará a expansão energética e produtiva dos EUA.
As declarações de Trump sobre sua intenção de anexar a Groenlândia aos EUA também é uma referência direta aos mapas e propostas dos tecnocratas, pois em ambos os casos, a justificativa para a tomada de tal território reside sobre alegações de que os EUA devem dominá-lo para garantir sua segurança nacional, seja no âmbito militar, energético, de recursos e comercial, com Trump citando nominalmente que deseja expulsar qualquer tipo de influência externa da região, alegando uma suposta influência chinesa e russa sobre a Groenlândia.
Outros territórios que originalmente faziam parte dos mapas do Technate também estão sob a mira de Trump com diferentes alegações para a interferência dos EUA sobre eles:
Territórios e países recentemente ameaçados por Trump
- Trump ameaçou anexar o Canadá e torná-lo o 51º estado dos EUA, citando falhas em controle de fronteiras e drogas, tarifas comerciais e influência chinesa.
- Trump atualmente fala sobre uma intervenção militar no México, citando falhas em controle de fronteira e drogas, falta de combate ao crime organizado, imigração e influência chinesa.
- Trump ameaçou intervir no Panamá e obrigou o governo panamenho a implementar medidas contra empresas chinesas, chegando a ameaçar recuperar o controle do Canal do Panamá, citando uma suposta ineficiência na administração do canal.
Além dos países citados anteriormente, Trump também já fez ameaças de interferência militar contra a Colômbia, Cuba e Nicarágua, reforçando seu âmbito expansionista na região do Caribe.
Em dezembro de 2025, a Casa Branca anunciou a retomada da Doutrina Monroe ou a nova "Doutrina Donroe" com o nome de "Trump Corollary", revivendo a esfera de influência dos EUA no Hemisfério Ocidental, incluindo o estabelecimento de intervenções militares, econômicas e políticas contra países que não estejam alinhados aos interesses dos EUA.

Capa do jornal New York Post exibe Trump apontando para um mapa do continente americano sob a ótica da "Doutrina Donroe", com o Canadá, Groenlândia e Panamá sendo territórios anexados aos EUA
Donald Trump não é um tecnocrata no sentido literal, mas suas ações e declarações de expansão territorial remetem aos planos do Technate de anexar territórios aos EUA para garantir a completa autossuficiência de recursos, isolacionismo norte-americano e expulsão de toda e qualquer tipo de influência externa de toda a América, seja ela chinesa, russa ou de qualquer outra potência.
Em resumo, as ações e retórica de Trump no segundo mandato (iniciado em janeiro de 2025) exibem paralelos notáveis com o plano do Technate of America, que visava criar um superestado autossuficiente em recursos, governado por elites técnicas para eliminar ineficiências democráticas e capitalistas. O mapa do Technate, de 1940, incluía EUA, Canadá, México, Groenlândia, América Central, Caribe e norte da América do Sul (como Venezuela e Colômbia), priorizando energia, defesa e isolacionismo.
Esses elementos não foram apenas mencionados, mas em parte executados por Trump, culminando na adoção oficial do "Trump Corollary" à Doutrina Monroe na National Security Strategy de dezembro de 2025. Essa agenda de domínio hemisférico, justificada por segurança energética e combate a influências externas, sugere uma ressurreição implícita de ideias tecnocráticas, adaptadas ao contexto contemporâneo de "America First", mesmo que sem referência explícita ao movimento original.