A Nova Guerra Fria da Inteligência Artificial
A disputa global por IA polariza o mundo: EUA com Pax Silica, China com WAICO. Washington impõe a escolha de um lado nesta guerra aos países.

Países membros da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial vs. países membros da Pax Silica
Uma nova disputa geopolítica de alto nível está ocorrendo aos moldes da Guerra Fria, dessa vez travada pelos Estados Unidos da América e pela República Popular da China. A grande corrida tecnológica dessa nova Guerra Fria é a inteligência artificial (IA), assim como a Corrida Espacial foi a disputa tecnológica entre os EUA e a União Soviética entre os anos 1950 e 1970.
Pax Silica
Em dezembro de 2025, os EUA lançaram uma iniciativa chamada Pax Silica, formando uma aliança global para garantir a segurança de cadeias de suprimentos de IA e tecnologias avançadas. Visa criar um consenso de segurança econômica entre aliados e parceiros de confiança, cobrindo toda a cadeia produtiva do setor de minerais críticos, energia, manufatura avançada, semicondutores, infraestrutura de IA e logística. A Pax Silica foi formada sob a liderança dos Estados Unidos e integrada por países com alinhamento histórico aos EUA, como Reino Unido, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Índia, Israel, Singapura, Emirados Árabes Unidos, Catar, Suécia, Filipinas, União Europeia, Alemanha, Países Baixos, Argentina, Chile, Cazaquistão, entre outros, além de Taiwan que participa como não-signatário, mas endossa os princípios da iniciativa.

Países membros da Pax Silica, agosto de 2026
Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO)
A China formou a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial para competir diretamente com Pax Silica dos EUA, liderando a iniciativa com princípios de uma organização intergovernamental independente, liderada pela China, criada para promover a cooperação internacional e a governança global da inteligência artificial. Seu objetivo declarado é garantir que o desenvolvimento da IA seja benéfico, seguro, justo e inclusivo para toda a humanidade, com foco especial em reduzir a “divisão de IA” (o gap tecnológico entre países desenvolvidos e em desenvolvimento) e ampliar a participação do Sul Global no setor tecnológico. A Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial segue os princípios da Carta da ONU, adota uma abordagem “centrada nas pessoas” e enfatiza consulta ampla, contribuição conjunta e benefícios compartilhados, com a sede da organização em Xangai.
A ideia foi proposta pela China em julho de 2025, durante a World Artificial Intelligence Conference (WAIC) em Xangai, com base na Global AI Governance Initiative lançada por Xi Jinping em 2023, sendo formalmente estabelecida em 16 de julho de 2026, com a assinatura do acordo por representantes de 29 países, na véspera da WAIC 2026.
Os países fundadores e signatários da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial incluem principalmente países da Ásia, África e América Latina, além de alguns da Europa Oriental, sendo os de maior relevância: China, Rússia, Brasil, Indonésia, Paquistão, Cazaquistão, África do Sul, Cuba, Venezuela, Belarus, Sérvia e outros (cerca de 10 africanos e 12 asiáticos).

Países membros da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, agosto de 2026
A nova Guerra Fria pautada pela Inteligência Artificial
Com a grande competição entre empresas de IA dos EUA e da China, em agosto de 2026 foi revelada pela Reuters uma iniciativa do governo Trump para forçar países ao redor do mundo a escolher um lado definitivo na chamada "guerra da inteligência artificial", com a elaboração de uma política de Estado que proibirá países que usam IAs chinesas de usarem IAs dos EUA, resultando na proibição do acesso a qualquer tecnologia avançada que seja relacionada a IAs de empresas dos EUA ou infraestrutura e sistemas tecnológicos do país.
A medida dos Estados Unidos foi tomada em um momento em que modelos de inteligência artificial desenvolvidos na China estão em ascensão no mundo inteiro, com modelos como o DeepSeek, Kimi, Qwen e GLM oferecendo excelente custo/benefício em relação aos seus concorrentes ocidentais, como o Claude da Anthropic, ChatGPT da OpenAI e Gemini do Google.
Principalmente em países do Sul Global que não possuem grande capital para pagar pelo alto custo dos tokens de modelos de IA dos EUA, a popularização de IAs chinesas tem sido rápida e em grande proporção, conquistando vastos mercados na maioria dos países em desenvolvimento, além de avançar em mercados de países ocidentais, justamente pela sua excelente oferta de desempenho e custo por token. Mesmo com altos subsídios para tentar baratear o custo por token, as empresas de IA dos EUA não estão conseguindo competir com o preço praticado pelas chinesas.
Além do custo dos serviços de IA, a China tem adotado uma abordagem bastante diferente em relação aos EUA para desenvolver seus modelos de IA. Enquanto a China aposta em software open source (código aberto), as empresas dos EUA reforçam sua propriedade privada e fecham o desenvolvimento e uso de seus modelos de IA, adotando uma abordagem de bloquear completamente o acesso a seu software e exigindo sempre o pagamento de licenças e mensalidades para o acesso a suas IAs, o que tem levado até mesmo a desenvolvedores ocidentais a adotar IAs chinesas, justamente pela possibilidade de rodar modelos em máquinas locais, seja em computadores pessoais ou servidores dedicados.
Disputa global pela hegemonia em IA
Os EUA estão elevando a disputa a um novo patamar ao forçar que países tomem um lado na corrida da inteligência artificial, aumentando as tensões globais no contexto da disputa dos EUA contra a China no setor. A tendência é que os EUA se isolem ainda mais com seus parceiros históricos, enquanto a China continua a conquistar mercados em todo o Sul Global e até mesmo em nações tradicionalmente alinhadas aos EUA, como é o caso do Brasil, membro fundador da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial liderada pela China.
Além das organizações citadas, ainda há movimentação do BRICS+ para estabelecer uma organização própria do bloco voltada para o desenvolvimento conjunto de inteligência artificial.
Essa corrida demonstra como a inteligência artificial, muito além de uma mercadoria tecnológica, é um ativo estratégico para as potências do século XXI, que potencialmente definirá qual será a superpotência e os blocos hegemônicos do mundo multipolar.